quarta-feira, 1 de março de 2017

A Leitura e a Interpretação na Perspectiva Discursivo Materialista ou Como fazer um boneco de neve feliz ao limitar as interpretações pelo contexto

"Somos sujeitos de linguagem, pegos na poesia da língua." 
LAGAZZI, Suzy.  

Esse trabalho pretende brevemente discorrer sobre a leitura e a interpretação na perspectiva discursivo materialista. Para isso, utilizarei a versão brasileira da música 'In Summer', 'No Verão', do filme de animação 'Frozen - Uma Aventura Congelante', produzido pela Walt Disney Animation StudiosEssa música foi escolhida pois combina diversos meios de produção 'textual' (sons, imagens e palavras) para formar um contexto que delimita as teoricamente infinitas possibilidades de interpretação de forma que só haja uma na mente dos espectadores, que contrasta fortemente com a ideia da música e do próprio personagem protagonista dessa cena, criando uma aura de assombramento, ironia e diversão.  
Primeiramente, devemos estabelecer alguns pontos sobre a perspectiva discursivo materialista, a saber: partindo da leitura e questionamento do livro "Curso de Linguística Geral", atribuído a Ferdinand de Saussure (mas escrito por dois alunos seus), a perspectiva discursivo materialista começou a se formar com base na relação significado-significante e o que ela implica. No 'Curso', é dito que essa relação é inequívoca e negativa - o significante 'cão' traz o conceito 'cão' (e somente esse) e, logo, significa 'cão' por não significar 'gato', 'torradeira', 'cavalo' ou qualquer outra palavra. Porém, sabemos que existem palavras que são sinônimos, um 'cão' poderia ser chamado de 'cachorro', que são significantes diferentes, mas possuem o mesmo significado. E também é possível chamar um homem de 'cão' (ou 'cachorro') que seria o mesmo significante, mas com ainda outro significado (normalmente, o de 'canalha' ou 'cafajeste').  
Indo além, o 'Curso' reconheceria essas relações até certo nível ao dizer que existem quatro tipos de associações: entre significados ('cão' e 'cachorro'), significantes ('pato', 'gato' e 'rato'), sufixos ('alimento' e 'encorajamento') e radicais ('pesar' e 'pesada'). Essas próprias relações já mostram que uma palavra 'chama' a outras. Ao se dizer 'cachorro' pode-se pensar em 'cão', 'socorro', 'cachorrice' e, levando-se em consideração o contexto em que a frase foi dita, até em 'ex-namorado', 'vizinho', 'chefe' e outras palavras que não apresentam nenhuma relação aparente com a palavra 'cachorro'. E o fato de que se escolheu dizer 'cachorro' e não uma dessas outras palavras (em especial no segundo conjunto de palavras: ex namorado, vizinho e chefe), já comunica muito ao ouvinte/receptor.  
Tendo isso em mente, a perspectiva discursivo-materialista vai defender que a leitura e interpretação podem ser as mais diversas, pois, ao se dizer algo, cada leitor irá associar de uma forma diferente as palavras sendo ditas - e as palavras não sendo ditas. "Te pego na esquina depois da aula" pode ser tanto um recado amigável para uma carona ou uma ameaça de um 'valentão', e as palavras em si não mudam. "Venha aqui agora, senão..." normalmente indica uma ameaça, mas poderiam muito bem indicar uma premiação, já que nada está sendo dito. Porém, obviamente, o contexto muda e a perspectiva discursivo materialista também leva isso em conta. É por isso que 'cachorro' nem sempre é associado com 'ex-namorado'. Em suma, existem infinitas possibilidades de interpretação de um texto, mas o contexto deve ser sempre levado em consideração, pois ele limita e exclui diversas possibilidades. Sendo que a existência de limites para interpretação é a maior diferença da perspectiva discursivo materialista de outras perspectivas discursivas.  
Vale lembrar, antes de continuarmos, que entendemos por contexto não só o contexto histórico e social, mas os meios de produção, se é um bilhete, uma frase dita (oral), um cartão, um vídeo, uma música etc. E também que ao se dizer 'texto' estamos nos referindo não só à palavra escrita, mas à imagens, sons, e até mesmo cheiros - e a ausência deles. 
Para exemplificar essas ideias é que vou usar a música já mencionada, 'No Verão'. Durante a animação musical 'Frozen - Uma Aventura Congelante', essa música aparece como apresentação do personagem 'Olaf', um boneco de neve que sonha em conhecer o verão. Porém, sendo um boneco de neve, Olaf não possuí cérebro e, logo, não compreende o que de fato aconteceria se (e quando) 'o verão chegar'. A letra combinada com o vídeo (ao longo da análise trago imagens do vídeo) abusa das relações formadas pela linguagem na cabeça do leitor/espectador para entreter e divertir, mostrando claramente que as pessoas interpretam além do que lhes é dito/mostrado, mas que isso é delimitado pelo contexto do que ouvem/veem (no caso, senão poderiam acrescentar leem, cheiram e outros). A seguir, a como aparece no site 'Letras.mus.br': 

"No Verão" 
Abelhas zumbindo, crianças brincando e se divertindo E eu fazendo o que a neve faz no verão Vou me refrescar, na areia escaldante me deitar Um bronzeado lindo pegar no verão 
Vou ver a brisa do verão afastar o mau humor E ver o que o gelo se torna quando está no calor Eu mal posso esperar para ver o que vão pensar Meus amigos vão me achar mais legal no verão 
Bada badu badabadaba badu O frio e o calor, os dois têm grau Por eles juntos é natural Ratatatá tatá tátataduu O inverno é uma época meio insossa Eu quero o verão pra virar Um boneco de neve feliz! 
Se a vida se complica eu me apego então Ao meu sonho de ficar no sol, relaxando a pressão Com o céu azulzão e todos lá estarão Pra que eu faça demais O que o gelo faz no verão No verão 


Primeira estrofe, segundo verso: 'E eu fazendo o que a neve faz no verão' e quarto verso: 'Um bronzeado lindo pegar no verão'.  
A graça nessa primeira estrofe está criada na oposição entre a associação de 'o que a neve faz no calor', que poderia ser : derreter, molhar, sumir, encharcar, desmantelar, melecar, inexistir e muitas outras opções, mas onde nenhuma delas jamais seria 'bronzear-se', como sugere o quarto verso. 

Segunda estrofe, segundo verso: 'E ver o que o gelo se torna quando está no calor' 
Essa estrofe não só reforça a ideia de que Olaf não compreende o que aconteceria consigo mesmo no verão - que por si só já mostra a interpretação delimitada do conceito de verão a calor e sol, o segundo tendo destaque na maioria das cenas dessa sequência, mas essa estrofe também faz alusão direta às cenas mostradas. Num primeiro momento, Olaf aparece segurando uma bebida com gelos de diversos tamanhos, simulando o formato do boneco de neve. Assim, os gelos de diferentes tamanhos fazem o leitor pensar que os menores já derreteram. E alguns segundos depois, Olaf se joga ao mar, com seus 'pedaços' se afastando um do outro  - remetendo à primeira imagem e à ideia de derretimento dela. 
Close dos gelos na bebida de Olaf 

Olaf após ter se atirado ao mar 


Terceira estrofe, quinto, sexto e sétimo versos: 'O inverno é uma época meio insossa / Eu quero o verão pra virar / Um boneco de neve feliz!" 
Esse trecho combina sons, imagens e texto. Ao mesmo tempo em que a palavra 'insossa', numa associação por significantes, remete à 'poça' em uma das suas infinitas possibilidades, no vídeo Olaf está correndo e para diante de uma poça d'água. Não bastando a imagem de uma poça para fazer o espectador automaticamente pensar nessa palavra, a música dá espaço para apenas uma palavra e há uma breve pausa enquanto Olaf encara a poça d'água a sua frente - a sequência seguinte 'um boneco de neve feliz' está fora do tempo da música. Assim, o espectador - que esperava por três meios diferentes ouvir a palavra 'poça' (pelas infinitas associações da palavra 'insossa', limitadas pela imagem de uma poça d'água e combinados com o tempo da música) fica surpreendido com a fala do pobre boneco de neve, que não soube interpretar os limites de sua própria situação. 
Quarta estrofe, segundo verso: 'Ao meu sonho de ficar no sol, relaxando a pressão' 
Aqui, novamente temos uma combinação de palavras e imagens. Olaf diz que quer 'relaxar a pressão', que, assim como insossa, possui infinitas possíveis associações, sendo algumas delas a 'panela-de-pressão', a física e a meteorologia. Em todas essas, uma das possíveis palavras que aparecem é 'vapor'. Apesar de parecer necessária uma grande abstração para se chegar à palavra vapor (essas são apenas algumas das possibilidades), fica claro como é natural associar uma palavra a outra quando se vê o bonequinho de neve soltar vapor por sua cabeça. E, claro, a física deixa claro (assim como a panela de pressão faz) que a água vira vapor ao ser esquentada até seu ponto de ebulição. Olaf, no verão com sol quente como seria mostrado nas imagens, não só viraria uma poça d'água como se transformaria em vapor, não só derretendo, mas vaporizando-se, ou até sublimando-se. 


Assim, apenas com uma música curta de uma animação popular, pode-se ver as ideias da perspectiva discursivo-materialista e como há possibilidade de infinitas interpretações, mas essas são limitadas pelo contexto.