domingo, 8 de janeiro de 2017

A Moldura da Literatura

Ler sempre foi o meu modo de compreender o mundo. Aos poucos, comecei a escrever também. Contos, poemas...algumas tentativas de romance. Haikais, trovas, crônicas. Dos 12 anos aos 22, mantive um blog onde resenhava o que lia e postava o que escrevia, o que me permitiu criar uma rede de contatos literários na blogosfera. Aos 20, criei a revista online “A Capitolina”, junto com outros nove colaboradores de todo o país.
Nesse meio tempo, decidi estudar literatura na faculdade.  Imagino que essa trajetória não seja comum entre crianças que leem, e sem dúvidas mostra a intensidade do meu interesse. Através da literatura, conheci, questionei e descobri, a mim e ao mundo. Li e refleti sobre sua função, como ensiná-la, pensá-la, usufruí-la. Mas, talvez até tarde demais, hoje eu venho perguntar o quê realmente é 'literatura’.
Enquanto o blog e a revista literária ainda existiam, constantemente me perguntava o que se caracterizava como literatura. Tive as mais variadas respostas: literatura era o canônico, o livro como objeto no mundo, o que se propunha a questionar, re fletir ou acrescentar algo à imaterial psique humana. A insatisfação com essas defini- ções me levou a formular outras, também insatisfatórias. Poucas vezes escapei de visões ainda limitada de que literatura seriam poemas, contos e romances. Minhas definições consistiam basicamente em dividir os livros dessas três categorias em outras três: livros técnicos, Literatura e literatura.
Os livros técnicos seriam todos aqueles que não possuem uma característica poética intrínseca. Os manuais, guias, dicionários, apostilas, didáticos. Literatura e literatura já era uma linha mais tênue, fácil de ser perdida. A categoria Literatura, incluía os livros canônicos, e todos aqueles que pareciam ter algo mais ‘profundo’. Em literatura ficariam todos os livros com histórias mais simples, o famoso "boy meets girl", nada que exigisse reflexão ou engajamento maior do leitor. Aparente- mente, eu simplesmente queria colocar os livros que gostava em uma categoria supostamente mais elevada, usando um critério vago e subjetivo.  
Uma vez na faculdade, percebi o quão comum isso é. Estudando a história da literatura, vê-se que a definição de literatura nunca é clara - mas ao analisar como e por quê a literatura é ensinada, padrões começam a surgir. Numa época em que a literatura foi ensinada como instrumento para o ensino da oratória, peças teatrais eram lidas e poemas eram declamados. Quando a literatura era vista como morali- zante, qualquer livro que tratasse de temas que não correspondiam à visão corrente eram rechaçado. Hoje, quando quadrinhos são mais disseminados e livros são cada vez mais adaptados ao cinema, a literatura é tratada como um meio de desenvolver empatia.
Em uma atividade para a faculdade, tive que entrevistar pessoas sobre sua visão da literatura. Decidi interagir com alunos do último ano do ensino fundamental do colégio onde estudei, o que, levando em conta minhas reflexões, foi uma experiência reveladora - uma vez  que eles ainda não estão focados no vestibular e tiveram nove anos de aulas de literatura. Examinando a sua definição de literatura, notei que a maioria considera apostilas, ensaios e dissertações como literatura. E aqueles que consideraram até mesmo video games, justificaram dizendo que pode-se aprender algo de qualquer mídia. Não é de espantar, portanto, que a maioria tenha dito que a literatura serve para auxiliar o ensino de outras matérias escolares e para acrescentar 'conhecimento' e 'cultura'. O mais curioso é que todos tinham respostas para o que era literatura, e justificativas, além de uma definição, muitas vezes elaborada, para a função da literatura - mas, de 84 alunos, apenas dois disseram já ter refletido antes sobre o assunto.
As crianças que eu entrevistei foram apresentadas a alguns livros durante sua vida escolar, e cada um deles foi ponto de partida para discussão de algum tema es- colar – lembro quando eu mesma li ‘O Super Tênis’ no Ensino Fundamental, um livro que falava sobre a invenção de uma borracha especial que, quando moldada no formato de um tênis, fazia o protagonista pular alturas imensas; Nesse ano, estávamos discutindo sobre grandes invenções da humanidade. Comparando isso com a minha própria definição de Literatura, o que acrescenta conhecimento, e literatura, o que apenas diverte, vejo como o que me foi apresentado como literatura na escola influenciou a minha visão.
Voltamos então à faculdade, e aos inúmeros trabalhos, aulas e livros sobre como e por quê ensinar literatura. Parece-me que estas são, de fato, questões indissociáveis da definição de literatura – foi para mim, para os autores que li na Academia, e é para os alunos que entrevistei. E, sendo indissociáveis, por quê então a definição de literatura não é questionada com mais frequência?
Que fique claro, não pretendo definir o que é literatura, quero manter a liberdade que é tão intrínseca a ela como forma de arte. Quero apenas propor que analisemos com mais atenção o que é apresentado como literatura. E gostaria de enfatizar o ‘apresentado’.
Vivemos numa era digital e visual. A nossa definição de livros mudou – eles podem ser lidos no celular, tablet, computador. As histórias podem vir em versos, prosa, quadrinhos, audio. Ainda assim, não há espaço na Academia e nas escolas para o questionamento da mídia e plasticidade da literatura. Livros são mais do que material impresso com caráter poético, como define o dicionário. Mais do que nunca, a literatura está associada a uma experiência sensorial, que vem sendo ignorada - existem inúmeros debates sobre como a literatura vem sendo rechaçada, como perdeu espaço na sociedade. Porém, a industria de e-books, áudio-books e quadrinhos apenas cresce; Nós não vemos isso porque essas mídias nunca foram apresentadas a nós como literatura.
Em outras formas de arte, esse tipo de evolução foi mais facilmente questiona- da. Pensemos na escultura ‘A Fonte’, de Duchamp; Ele ‘simplesmente’ assinou um urinol e o colocou em exposição numa galeria de arte. Aquilo foi considerado arte, porquê foi apresentado como arte – e é aí que está a diferença. Se ele tivesse assinado um urinol de um banheiro público, aquilo seria um gesto de vandalismo, talvez. Foi a apresentação do objeto que fez dele obra, nesse sentido. Foi retirar o comum do mundano.
Quando digo ‘a moldura da literatura’ me refiro a esse tipo de moldura metafórica: se colocamos a obra dentro dessa moldura artística, ela é, invariavelmente, arte. E nós estamos colocando uma moldura muito pequena na literatura.

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