domingo, 1 de janeiro de 2017

O quê é literatura?

O quê é literatura?

Assim como a escritora Virginia Woolf em seu artigo “Como
se deve ler um livro?”, “em primeiro lugar, eu gostaria de enfatizar o ponto de interrogação no final do meu título”. Eu não pretendo ditar regras sobre ou definir a literatura. Afinal, “admitir autoridades, por mais bem vistas e celebradas que sejam, nas nossas bibliotecas é deixá-las nos dizer como ler, o que ler, que valor dar ao que lemos, é destruir o espírito de liberdade que é o alento desses santuários. Em todos os outros lugares nós podemos estar presos a leis e convenções – lá, nós não temos nenhuma”. E, tendo em mente essa liberdade, ao meu ver, inerente à literatura, o que desejo não é limitar o que é literatura, mas, sim, como é vista a literatura.

Agora, vou de Virginia Woolf a Antoine Compagnon. Professor e historiador de literatura, e o autor de “Para quê serve literatura?”, livro onde explora como e por quê tem se estudado a literatura – se de forma anacrônica ou sincrônica, se para desenvolver oratória ou empatia. Por mais importantes que estas questões sejam, acredito que elas são indissociáveis da pergunta aparentemente mais simples: o quê é literatura? Esse lugar livre, santuário sem leis nem convenções.
Para tanto, decidi entrevistar alunos do último ano do Ensino Fundamental, uma vez que eles não estariam ainda inseridos na mentalidade voltada ao vestibular tão presente no Ensino Médio, ao mesmo tempo em que teriam tido 9 anos escolares onde a literatura é presente na grade curricular – tornando os capazes de dissertar sobre o assunto com uma propriedade não tendenciosa. Tive a sorte de, no Colégio Luiz de Queiroz, escola particular de Piracicaba, interior de São Paulo, ter a minha disposição uma aula de cinquenta minutos em cada uma das três salas do 9º ano. Ao todo, 84 alunos participaram da minha pesquisa. Acreditando que simplesmente perguntar ‘O que é literatura?’ traria respostas tanto mais objetivas quanto menos reflexivas da real opinião dos alunos, elaborei um questionário em três partes, que buscava responder a pergunta de forma subjetiva e indireta.

A Primeira e Segunda Partes


Comecei por apresentar objetos (listados abaixo) aos alunos, que deveriam responder, em uma folha de papel, se o que estava sendo mostrado a eles era ou não literatura, ou se não sabiam dizer. Havia apenas uma regra: nenhuma pergunta poderia ser respondida. Nem um aluno responderia ao outro, e nem eu os responderia. Não informei título, autoria ou conteúdo. Para a segunda parte, repeti as instruções, acrescentando a opção de ‘depende’ (e o pedido de uma justificativa para essa resposta, que só metade deles acatou). A diferença é que, na segunda parte, ao invés de apresentar objetos, ditei palavras que representariam conceitos (seguem abaixo também). As respostas foram, de uma só vez, surpreendentes e significativas, principalmente se comparadas entre si.
Esperava que os alunos julgassem os objetos da Parte I pela sua plasticidade: se era um livro impresso e encadernado, seria literatura, enquanto que aquilo que divergisse disso, não seria. Porém, o que os alunos fizeram, por não poder tirar dúvidas, foi ler qualquer informação que o material pudesse passar em sua capa. E foi assim, penso, que a peça teatral de Millôr (objeto 5) teve um alto índice (33%) de respostas ‘não é literatura’, ainda que a maioria dos alunos (48%), na Parte II, dissesse considerar peças teatrais, literatura– acredito ter sido o título “O homem do principio ao fim’, combinado com a clássica imagem da evolução do macaco ao homem,  remetendo a um livro evolucionista, biológico, não teatral, que influenciou essa resposta. 
    Também acreditei que os alunos diriam que quadrinhos não são literatura. Levei quatro exemplares do gênero: Superman (objeto 7) em forma de gibi, Lex Luthor (objeto 8) de capa dura, Batman (objeto 6) em uma edição especial que se assemelha a um livro de arte, e MAUS (objeto 10), que aparenta ser um livro no sentido mais estereotípico. Esperava que os alunos reconhecessem os personagens populares de quadrinhos e dissessem ‘não é literatura’, ao passo em que MAUS seria julgado literatura por não aparentar ser um quadrinho. Minha surpresa foi todos serem aceitos pela maioria como literatura (também na Parte II, 67% afirmaram que quadrinhos são literatura). Ainda assim, ao final do questionário, quando revelei que MAUS era uma história em quadrinhos, todas as salas tiveram a mesma reação decepcionada, como se tivessem errado em suas pressuposições. 
    Os únicos objetos que foram de fato julgados como não literatura pela maioria, foram o vídeo game e o filme, ainda que roteiros de filmes tivessem sido aceitos por 41% como literatura na Parte II. 

Então, a Terceira Parte

    Para a última parte da atividade, pedimos que respondessem, por extenso, à pergunta: “Pra quê serve a literatura?”. As respostas, por mais variadas, recaíram sobre cinco temas: aquisição de conhecimento e cultura, aquisição de vocabulário, entretenimento, auxílio em processos auto reflexivos e referência moral. 
    Mesmo sem estarem inseridos em uma prática escolar voltada ao vestibular, onde a literatura é comumente ensinada de forma objetiva – livros específicos são analisados em questões repetitivas e a escrita é puramente dissertativa, pois são as obras, questões e gênero textual  que serão avaliados na prova, mesmo sem isso, 46% dos alunos afirmaram que a literatura serve para aquisição de conhecimento e cultura, 12% para a aquisição de vocabulário e oratória e mais 10% para um caráter moralizante. Essas respostas mostram uma objetividade na visão da literatura, ela seria um meio para aquisição de outras habilidades, nas palavras dos alunos: para passar no vestibular, para escrever e falar bem, ter sucesso no futuro, pensar melhor, nos tornar sábios, ensinar algo – afinal, quanto mais você lê, mais esperto você fica. 
    Até as respostas que mostraram o caráter auto reflexivo mencionado acima, ficam numa linha tênue entre contemplação e função – ela serviria para imaginação, inspiração, para expressar em letras, nos ‘desligar’ da nossa realidade. Por fim, também houveram as respostas que dizem a literatura ser passa tempo e diversão...para alguns. E ‘alguns’ se expressaram, dizendo: ‘gosto de sentir o que leio, me imaginar na situação do livro e apreciá-lo. Gosto das histórias contadas com a literatura, escolho as melhores para pensar, ficar ansioso, curioso e achar engraçado, para viver muitas emoções.’

Por fim

 Ficou claro, para mim, principalmente ao cruzar os 46% que julgavam literatura ser tudo aquilo que é meio de aquisição de conhecimento com a alta aceitação de todos os objetos e conceitos apresentados como literatura, que os alunos tem uma visão prática, objetiva e funcional da literatura. Como se ela fosse meio para um fim, e se o fim fosse alcançado, era literatura. Quando questionados se poemas, posts de blog, roteiros de cinema, jornais, revistas, contos, apostilas e afins eram literatura, a resposta mais comum foi ‘depende do conteúdo/tema’. Uma visão que reflete o sistema educacional: se eu acreditava, por experiência e análise de materiais didáticos, que a literatura no Ensino Médio era voltada a produção de dissertações para o vestibular, não esperava que o Ensino Funda-mental já tivesse essa qualidade Dissertativa, de algo que espera, e pede, por uma introdução, desenvolvimento e, principalmente, conclusão definidos.
Foram poucas as respostas que apontaram para o outro lado, e tomo a liberdade (tão literária) de cunhar outro termo: o lado Ensaístico. O lado que prevê nada mais que a pura exploração, a reflexão inconclusiva. Não me surpreende, pensando nesses termos, que os alunos não soubessem o que é um ensaio literário, ou que tivessem feito perguntas (ao final da aula) como: “mas então, é tudo literatura?” e “qual é a resposta certa?”, ou que apenas dois, dos 84 alunos, tivessem dito já terem refletido sobre a definição de literatura antes. Nosso ensino literário preza pelo dissertativo, mas as questões literárias acabam por ser ensaísticas: Como se deve ler um livro? Para quê serve literatura? O quê é literatura?
Fica meu pedido para que essas perguntas continuem sendo exploradas e inconclusivas. Como a breve, vaga e possivel-mente irônica, resposta dada por dois alunos sobre para quê serve literatura: “Para ler”.  



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